30.3.11

Such a natural disaster.

Hoje, no ônibus, há uns 15 minutos atrás, vinha pensando na vida... e sim, filosofei - MAIS UMA VEZ, como em toda santa vez em que resolvo escrever nesse blog. Se torna até desnecessária a introdução, uma vez que só escrevo aqui quando paro de olhar pra fora e passo a olhar pra dentro de mim, quando descubro coisas e me espanto, ou não.
Estava me sentindo um 'estorvo', a pedra no sapato e no meio do caminho de muita gente. Não sou bonita, não sou magérrima, não sei falar 450 línguas perfeitamente, não costuro, não lavo, não passo, mal sei fritar um ovo, sou vegetariana, não sou a filha perfeita, nunca ganhei uma promoção, nem a rifa mais fuleira que seja. Nunca fui aluna favorita de nenhum professor, as pessoas não fixam direito meu nome - e, as que fixam, não possuem lá boas lembranças de mim. Não tive muitos namorados. Na verdade, não tive nenhum. Não me relaciono com ninguém, não da forma que gostaria. Não gasto nada em 12 de junho, mas também não ganho nem um "vá à merda". Tenho poucos amigos e, ainda assim, consigo me manter distante de todos, consigo virar fantasma, ser invisível. Sou quase um desastre natural.
Sei que muita gente gostaria de ser como eu sou, só mais uma na multidão, mas não é o que eu busco pra mim. Se eu me contentasse com uma vidinha medíocre, numa das coxias do grande palco da vida, já teria recusado esse papel há horas, há dias, há semanas, há meses, há anos. Teria fechado as portas do meu camarim. 
Posso não ter os 'atributos' que facilitariam minha caminhada por essa longa e sinuosa estrada, mas, sinceramente? Foda-se. Eu posso não ser perfeita, posso ter todos os defeitos do mundo - e eu tenho toda a CORAGEM de assumir: sim, eu tenho. Sou perfeccionista, irritante e imensamente insistente. Tão insistente que eu vou encher o saco, vou gritar, vou berrar, vou incomodar até chegar aonde eu quero. É assim que eu consigo as coisas, saindo do meu lugar-comum e enfrentando meus medos, deixando de ser acomodada e desacomodando quantos eu precisar. 
Já tentei fazer a 'Sandy' e ser boazinha, tentar me importar mais com os outros: passaram tantas e tantas vezes por cima de mim. Já tentei fazer a blasé, não fez diferença alguma: a não ser que precisem de mim, todo mundo caga e anda pro que eu tenho a dizer, pro que eu POSSO fazer. Então dane-se, vou ser eu mesma, seguir meu molde de canção de metal em outro idioma: à primeira vista, incompreensível, visceral, cheia de raiva, intensa, tão barulhenta que incomoda, irrita. Mas, por baixo de todo esse ruído, se permitir-se separar canal por canal, cada instrumento, organizar essa imensa desordem, pode-se perceber belíssimos solos de guitarra e uma letra que tem muito a dizer, talvez fale de amor, do que procuram ouvir - de um ângulo diferente de todas as outras, mas pode ser que até mesmo cative, traduza algum sentimento, colabore, acalme, anime, sinta e faça sentir.  Nem toda tragédia é feita de lágrimas, nem todo desastre só causa dor. Alguns podem ajudar a impulsionar pessoas, motivar, fazer com que saiam de seu mundinho pra desabrochar, pensar no próximo e pensar em si, se conhecer. E eu sou um desses desastres: bagunçada, meio totalmente louca, desajustada com todo o resto do mundo, mas tenho meu 'blueside', meus pontos bons que estão abertos à visitação. Basta querer.
K.

24.3.11

Sobre a escrita

     Devido ao estado de total abandono em que se encontrava este bloguito, acabei não contando a vocês o que ando fazendo – e, para desenvolver o texto que pretendo no post de hoje, necessito dar-lhes algum contexto. Pois bem: passei em dois vestibulares – Jornalismo, na Universidade Católica de Pelotas, e Letras – Português/Francês, na Federal da mesma ciudadela. Em virtude do pouco tempo que me restaria para estudar/estagiar/fazer qualquer coisa, optei por desistir do Francês e dedicar-me apenas ao Jornalismo, ofício que creio que combine mais comigo.  Dentro do Jornalismo, temos algumas cadeiras obrigatórias e comuns em outros cursos (Ciência e Fé, Ciência Política, Teoria Sociológica...) e as específicas, tais como Fotografia I, Introdução à Comunicação e Língua Portuguesa para Comunicação.
     Indo direto ao ponto, contar-lhes-ei sobre um episódio que aconteceu na noite passada, quando o professor nos pediu um texto de 20 linhas a respeito de ‘como escrever bem’, um pequeno resumo sobre o que já aprendemos através dos exercícios e das leituras. No início, fiquei bastante apavorada com o desafio, tentando lembrar dos textos deixados no xerox para leitura, toda a teoria que nos foi passada, conjunções, coesão, coerência...ai, o que é unidade mesmo?! Não ultrapassava as quatro primeiras linhas, com o famoso ‘bloqueio de ideias’.  Até que, em meio ao pânico pela falta de tempo e de assunto, ouço o professor repreendendo um aluno que tentava ler a teoria por debaixo dos panos: “Larga este homem, esquece o texto, isso é só teoria. Agora nós precisamos ir pra prática”.
     Prática, prática, prática...a tal palavrinha me grudou na cabeça e teimava em ficar. Liguei o botãozinho do dane-se (e o do iPod, pra abafar os ruídos externos e só ouvir os das minhas engrenagens) e comecei a escrever tudo o que me passou pela cabeça, moldando o rascunho assim que conseguia definir uma ideia, dando forma ao meu texto.
     Escrever bem, na verdade, não é mistério algum. Precisamos sim de conjunções, locuções adverbiais, um bom vocabulário, coerência, coesão. Mas, acima de tudo, um escritor necessita ter três coisas: precisa GOSTAR do que escreve, ENTENDER o que escreve, saber organizar as ideias e se fazer compreender. Sei que muitos possuem (e ensinam) técnicas de escrita, macetes, caminhos a serem seguidos pelos jovens escritores. Minha sorte é que tais técnicas ainda não me foram cobradas, tenho total autonomia para escrever do meu jeito, nessa minha ‘bagunça organizada’ de ideias. Já viciei nesse estilo – ou na falta dele – e acho difícil me enquadrar em um modelo pré-pronto, como um robozinho. Cada um se expressa de uma forma diferente, em palavras diferentes, em estruturas diferentes e é ESSA a graça da literatura em geral: poder ser irônico como um Machado, provocador como um Caio Fernando, gauche como um Drummond ou simplesmente maçante como um Paulo Coelho.
     Não sei se o que me inspirou para criar aquele texto (e este também) foram apenas os textos passados pelo professor de Língua Portuguesa ou se parte da ‘culpa’ é de Charles Kiefer e seus ensinamentos que venho lendo esporadicamente (“Para ser escritor”, um ótimo livro, indico) mas, ao repousar a caneta sobre a mesa, senti aquela sensação gostosa de dever cumprido, fiquei satisfeita com o que escrevi – mas, mesmo assim, pedi a opinião do professor. Talvez só para reafirmar a qualidade do meu texto, para ser elogiada. 
     Não pensei nessa hipótese em aula, apenas perguntei por costume, pela necessidade de ser aprovada ou não, de ser julgada, testada. Porém, ao chegar em casa e reler o rascunho, escondido dentro do caderno, lembrei de tantas coisas... do professor de Português/Redação do pré-vestibular, com quem tive meus conflitos, mas respeitava imensamente pelo conhecimento e facilidade de expressar-se, de nos passar o que sabia, de forma paciente e bastante didática. Lembro de uma aula em especial, do cursinho de redação que eu paguei e assisti apenas a duas aulas (eram seis), quando ele afirmou que todo aluno, ao escrever um texto, sabe dizer se está bom ou não, qual nota tiraria, o que precisa melhorar, o que fez a diferença (com o tempo, eu percebi que tal afirmação é 100% verdade).
     Aliado a isso, lembrei de uma passagem do livro do Kiefer, falando sobre o ego de todo escritor. Escrever é um ato solitário, não pode ser feito a quatro mãos. Todo o enredo de um texto, o molde de seus elos, encontram-se na cabeça do autor que, após terminar sua obra, corre para exibí-la, publicá-la. Afinal, quer ato mais narcisista do que colocar à venda uma produção sua, divulgar, fazer sessão de autógrafos e se permitir ser bajulado? Todo escritor tem um monstro interno chamado ego e, quanto mais alimentado fica, mais ele precisa dessa aprovação, ser apreciado. E menos ele escreve.
Por favor, digam que meus textos são horrendos, mesmo que um dia eu acerte a mão. Obrigada. 


K.