24.3.11

Sobre a escrita

     Devido ao estado de total abandono em que se encontrava este bloguito, acabei não contando a vocês o que ando fazendo – e, para desenvolver o texto que pretendo no post de hoje, necessito dar-lhes algum contexto. Pois bem: passei em dois vestibulares – Jornalismo, na Universidade Católica de Pelotas, e Letras – Português/Francês, na Federal da mesma ciudadela. Em virtude do pouco tempo que me restaria para estudar/estagiar/fazer qualquer coisa, optei por desistir do Francês e dedicar-me apenas ao Jornalismo, ofício que creio que combine mais comigo.  Dentro do Jornalismo, temos algumas cadeiras obrigatórias e comuns em outros cursos (Ciência e Fé, Ciência Política, Teoria Sociológica...) e as específicas, tais como Fotografia I, Introdução à Comunicação e Língua Portuguesa para Comunicação.
     Indo direto ao ponto, contar-lhes-ei sobre um episódio que aconteceu na noite passada, quando o professor nos pediu um texto de 20 linhas a respeito de ‘como escrever bem’, um pequeno resumo sobre o que já aprendemos através dos exercícios e das leituras. No início, fiquei bastante apavorada com o desafio, tentando lembrar dos textos deixados no xerox para leitura, toda a teoria que nos foi passada, conjunções, coesão, coerência...ai, o que é unidade mesmo?! Não ultrapassava as quatro primeiras linhas, com o famoso ‘bloqueio de ideias’.  Até que, em meio ao pânico pela falta de tempo e de assunto, ouço o professor repreendendo um aluno que tentava ler a teoria por debaixo dos panos: “Larga este homem, esquece o texto, isso é só teoria. Agora nós precisamos ir pra prática”.
     Prática, prática, prática...a tal palavrinha me grudou na cabeça e teimava em ficar. Liguei o botãozinho do dane-se (e o do iPod, pra abafar os ruídos externos e só ouvir os das minhas engrenagens) e comecei a escrever tudo o que me passou pela cabeça, moldando o rascunho assim que conseguia definir uma ideia, dando forma ao meu texto.
     Escrever bem, na verdade, não é mistério algum. Precisamos sim de conjunções, locuções adverbiais, um bom vocabulário, coerência, coesão. Mas, acima de tudo, um escritor necessita ter três coisas: precisa GOSTAR do que escreve, ENTENDER o que escreve, saber organizar as ideias e se fazer compreender. Sei que muitos possuem (e ensinam) técnicas de escrita, macetes, caminhos a serem seguidos pelos jovens escritores. Minha sorte é que tais técnicas ainda não me foram cobradas, tenho total autonomia para escrever do meu jeito, nessa minha ‘bagunça organizada’ de ideias. Já viciei nesse estilo – ou na falta dele – e acho difícil me enquadrar em um modelo pré-pronto, como um robozinho. Cada um se expressa de uma forma diferente, em palavras diferentes, em estruturas diferentes e é ESSA a graça da literatura em geral: poder ser irônico como um Machado, provocador como um Caio Fernando, gauche como um Drummond ou simplesmente maçante como um Paulo Coelho.
     Não sei se o que me inspirou para criar aquele texto (e este também) foram apenas os textos passados pelo professor de Língua Portuguesa ou se parte da ‘culpa’ é de Charles Kiefer e seus ensinamentos que venho lendo esporadicamente (“Para ser escritor”, um ótimo livro, indico) mas, ao repousar a caneta sobre a mesa, senti aquela sensação gostosa de dever cumprido, fiquei satisfeita com o que escrevi – mas, mesmo assim, pedi a opinião do professor. Talvez só para reafirmar a qualidade do meu texto, para ser elogiada. 
     Não pensei nessa hipótese em aula, apenas perguntei por costume, pela necessidade de ser aprovada ou não, de ser julgada, testada. Porém, ao chegar em casa e reler o rascunho, escondido dentro do caderno, lembrei de tantas coisas... do professor de Português/Redação do pré-vestibular, com quem tive meus conflitos, mas respeitava imensamente pelo conhecimento e facilidade de expressar-se, de nos passar o que sabia, de forma paciente e bastante didática. Lembro de uma aula em especial, do cursinho de redação que eu paguei e assisti apenas a duas aulas (eram seis), quando ele afirmou que todo aluno, ao escrever um texto, sabe dizer se está bom ou não, qual nota tiraria, o que precisa melhorar, o que fez a diferença (com o tempo, eu percebi que tal afirmação é 100% verdade).
     Aliado a isso, lembrei de uma passagem do livro do Kiefer, falando sobre o ego de todo escritor. Escrever é um ato solitário, não pode ser feito a quatro mãos. Todo o enredo de um texto, o molde de seus elos, encontram-se na cabeça do autor que, após terminar sua obra, corre para exibí-la, publicá-la. Afinal, quer ato mais narcisista do que colocar à venda uma produção sua, divulgar, fazer sessão de autógrafos e se permitir ser bajulado? Todo escritor tem um monstro interno chamado ego e, quanto mais alimentado fica, mais ele precisa dessa aprovação, ser apreciado. E menos ele escreve.
Por favor, digam que meus textos são horrendos, mesmo que um dia eu acerte a mão. Obrigada. 


K.

3 comentários:

Álvaro disse...

Ia elogiar até ler a penúltima frase.
Teu ego deve estar superalimentado levando em consideração a frequência em que escreves aqui.

Kitty disse...

HAHAHHA Ok, senti o tapa com luva de pelica daqui.
O problema é que isso se aplica a bons escritores. Escritores todos nós somos, a partir do momento em que aprendemos a escrever. Para ser um BOM escritor, é necessário saber também COMO escrever, praticar. Meu caso não é ego, é preguiça mesmo.

Beso,
K.

Ariel disse...

concordo em gênero, número e degrau.
Baita blog, imaginei que tu escrevia bem, não sei por que haha